sexta-feira, 12 de setembro de 2008

αγάπη

O vento mudou de direção
O rio virou mar
Estamos em outra estação
E não vejo nada mudar
A mesma sensação
Vem me fazer sorrir
Quando velo o teu sono
Tudo parece parar, só o coração
Me faz sentir indefeso
Diante do medo que o pra sempre
Seja apenas mais um momento
Queria ter amor imortal
Desses que Shakespeare descrevia
Tão forte que faria tudo parecer banal
Tão lindo que sem esforço faria
África ter aurora boreal
A gente ver crepúsculo ao meio-dia
E quando tudo parecesse não poder ser mais feliz
Falarias o quanto me ama mesmo sem precisar
E juntos, olhar em olhar,nariz em nariz
Sentiríamos a eternidade se alterar
Antes, da espera, o segundo
Agora, não bastar ter todo o tempo do mundo

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Depois

Depois de ver aurora boreal na África, Admirar o nascer de rosas no cimento, Viver a junção do céu e da terra, Perceber todos os tormentos Depois disso Como se vive uma vida normal? Como se esquece o sobrenatural? As coisas que vimos Que atingiram pontos Antes desconhecidos Como esquecê-las? Como esquecer o rosto dos mortos Primeira, Segunda, denominações O holocausto, o apartheid, Um abismo que chama outro abismo, como esquecer isto? Como esquecer os famintos, os portadores da aids, os que vivem de vômito, As feridas do mundo, Humanos a esmo, como esquecer disto tudo? O que está passando na televisão mesmo?

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Nada como a chuva...

Pluie, chuva, rain, 雨, βροχή e eu,
apenas contando as gotas.
"Os Deuses só são Deuses por que não se pensam."

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Narcoevangelismo

A bata negra esconde
Apenas para quem não sabe procurar com fé
Aos que vivem a guerra no front
O famoso gesto de ralé

Ela sente o medo de seus pupilos
E sabe que a curiosidade é maior
Sabe que a procura de abrigo
As vezes toma caminho de rosa incolor

Ela sabe, a bata negra
O que fazer para aliviar a dor
Sabe de cor a letra
Dessa música de uma nota só

Ela os tem como dados
Que antes de lançar ela sabe
O resultado tão viciado
Quanto a noite é do fim de tarde

Os dízimos crescem
As indulgências são caras
As almas padecem
O que antes era bom agora acaba

Tudo remonta o momento
Em que o batismo foi comemorado
Junto com o entorpecimento
Parecia que o corpo havia sido lavado

"A vós dou minha bênção
Derramo em vossas cabeças
Água de papoula
Hóstia de cheiro
Vinhos de loiras
Leio palavras de puteiros
Nas minhas mãos sem vida:
O livro sagrado das mentiras"

A bata negra
Enxerga o muro de cima
Não vê, não ouve
As lágrimas de despedida

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Desconstruindo

Temores despertam
medo de ser
de não ser
de morrer
e não entender
que o viver
não é ter
a vida é mais
meu trabalho é o que faço
não o que sou
não vivo para os outros, no fim
vivo apenas para mim
uma existência sozinha
é a minha
diferente de todas
mas igual em tudo
onde as primaveras passam
os jovens vagam
ao meu lado sem notar,
sem esperar
nada de ninguém
cada rosto sou eu,
cada face é minha,
mas cada vida, seu réu
a hipocrisia é uma escolha:
é o que pensam
podem mudar o mundo:
é o que julgam
antes de tudo somos lama
até sermos moldados
e a antiga chama:
olhamos seu apagar sentados
erramos o sal
consumidos pela fome
por algo banal.
Sou tudo que não vejo
cego por natureza e instinto
ouço os sentidos
não acrescento
apenas subtraio
tiro vidas,
sonhos,
sorrisos anônimos,
mas todos me tem muito
e pensam estar
acima de mim,
sou uma criança
com senso de humor caótico:
tiro os que fazem falta
os que viram poucas primaveras
os que nunca foram amados
os fracos, os bons
e abençoo os pobres de espírito,
medíocres, mortos em vida,
os que não sabem amar
os que vagam, sem pensar,
nasci do caos
e por isso sou o que sou
eu passo por você
e você continua sem perceber
no final, quando você se dá conta
não resta nada mais a fazer
a não ser dizer:
o tempo passou.


segunda-feira, 28 de julho de 2008

Caixa de Pandora

Vítimas da guerra e da omissão
Vivendo sem acreditar no amanhã
Morrendo a cada areia que cai
O homem convive com sua destruição

Ninguém sabe quem começou
Deus de nosso espírito corruptor
Criou o pensamento que nos aprisionou
Destruição dos sonhos de um pensador

Não há amanhã para nós
Suicídio de um sonho libertador
Matando como um carrasco atroz
O homem é seu próprio corruptor

Mas não podemos nos entregar
Até o último suspiro lutar
A vida temos que valorizar
Por que há pessoas inferiores?
Vidas sem valor algum
Sonhos destruídos por seus genitores
Desperdício das riquezas de nenhum

Até quando isto vai durar?
Temos poder para vencer?
A resposta so o tempo trará
Não posso mudar o mundo
Mas posso mudar a mim
E todos juntos
Podemos mudar o fim

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Sementes de dignidade

O silêncio foi quebrado pelo sangue
que era metal e trovão
que tinha em seu semblante
o conhecido brasão
alvo do seu juramento de proteção
a todo custo
uma vida vendida a mil reais
sua útlima lágrima que escorria no rosto
se confundia com o sangue
da coroa de espinho
o mesmo que corre na barriga da sua mulher
que é mãe demais para ser jovem
o mesmo que corre em seu filho
que aprendeu muito cedo o significado da palavra Amém
e que nunca entenderá
por que o pai não cumpriu a promessa que fez pela manhã
quando o fantoche da TV falava sobre o massacre
e o homem da lei falava sobre a falta de lei na cidade
e a obrigação de proteger as pessoas
mesmo sabendo que a morte em seu ouvido soa
e o medo de nunca mais ver seu primogênito
o fez dizer
a noite eu volto e uma história pra ti vou ler
sem saber que ninguém lerá outra história hoje
a única história será de um homem
que tem no coração bondade
e o arrependimento de ter tido a coragem
pra não deixar o medo torna-lo um covarde.